Délio Pinheiro: O tempo tem respostas a dar?

Posted by: Endorfina | Posted on: setembro 7th, 2016 | 0 Comments

O tempo tem respostas a dar?

garrincha“Nem tudo que é torto é errado. Veja as pernas de Garrincha, veja as árvores do Cerrado”. Por um instante pensei na frase que li um dia desses na internet e pensei como seria bacana estampá-la numa camiseta branca e sair por aí exercitando a secular arte de chutar tampinhas.

Acrescentaria a este visual um boné surrado, alguns caraminguás e um confortável tênis de corrida, pois nunca se sabe quando se pode dar uma esticada no asfalto, não é mesmo? E cuidaria de deixar o celular devidamente carregando em alguma tomada por aí, bem longe de mim.

Seria um dia perfeito, sem obrigações, atualizações, reuniões, plantões e irritações. Como seria bom um dia assim? Pena que isso seja utópico neste momento de minha vida, quando os compromissos parecem me esbofetear na rua sempre que me distraio com algo novo e, aparentemente, banal. E se não está na agenda, obviamente que não pode ser resolvido assim, de chinfra.

Ando pensando demais na frase atribuída a Sócrates que pede que tenhamos cuidado com o vazio de uma vida ocupada demais. Sinto que não estou dando conta de fazer todas as tarefas em que me lanço, e desconfio que essa impressão seja compartilhada por um punhado de gente, não é mesmo?

Será que as 24 horas protocolares não estão dando conta de encaixar tantos compromissos? É preciso tempo para cuidar da família, sobretudo dos filhos, e esse tempo é absolutamente sagrado. Assim como deve ser o tempo dedicado ao trabalho, que nos dá o sustento. E também devemos devotar dedicação às atividades físicas, certo?

E como fica a vida espiritual, e cadê o tempo para ver filmes legais que são lançados todos os meses e encontrar pérolas que passaram incólumes em outras décadas e que são igualmente fascinantes? E como achar tempo para ler despreocupadamente até sentir cansaço e resolver fazer uma caminhada pelo bairro para espairecer ou tentar elucidar o mistério que nos propõe Raymond Chandler ou Stephen King?

Cadê o tempo? A revista Piauí atravessa o mês praticamente sem ser lida. Os compromissos na agenda se acumulam. E a viagem das férias em janeiro, já é hora de planejar? E a vida afetiva, como manter o romantismo quando as contas chegam? E o fim de semana no clube campestre? E os cursos que pretendo fazer? De mestrados e pós graduações a culinária e xadrez? E ainda tem milhares de mensagens recebidas e não respondidas em várias redes sociais.

Digital generated infinity like time spiral

Tempo, é mesmo um dos deuses mais lindos? Porque diabos não consigo admirá-lo e sequer entendê-lo?

Mas deixemos de filosofia, porque os compromissos não esperam. Tenho uma reunião inadiável às cinco. O assunto? Nem me lembro mais, só sei que estou quinze minutos atrasado. A impressão é que estou permanentemente quinze minutos atrasado.

Mas a vida faz sentido novamente quando olho novamente para o relógio e vejo que já são seis horas. Tempo de trocar de roupa no carro mesmo e partir a toda pelo asfalto que está quente, pulsante, à minha espera. Durante cerca de uma hora e meia os problemas deixarão de existir. Os compromissos terão que esperar, e a realidade se cobre com um véu de esperança. Resultado da endorfina no cérebro? Certamente.

Evoé, o tempo não para!

Pensando bem o tempo é, ao mesmo tempo, torto e errado, ao contrário das pernas de Garrincha e as árvores do Cerrado.

Délio Pinheiro Endorfina

Délio Pinheiro

Jornalista, repórter e apresentador da INTERTV Grande Minas/Rede Globo, endorfinado de carteirinha.

 

 

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